Recensão semanal a vários discos recentes
R.E.M. – Collapse Into Now
Um punhado de boas canções abrilhantadas por uma voz poderosa, por um guitarrista (e bandolinista) com passe para as mais variadas zona musicais e por um baixista/teclista de coros afinados e sensibilidade pop, e uma maleabilidade fácil de toda a nau entre a neura eléctrica e a meditação baladeira, deveriam ser factores suficientes para o convencimento geral... caso não estivéssemos a falar dos R.E.M.
Tal como ao FC Barcelona não basta uma vitória tangencial no relvado, é imperativa uma goleada; ao R.E.M não basta um bom disco, pede-se-lhes que arrasem. No meio de um discogafia tão esplendorosa e numerosa como é a da banda de Michael Stipe, "Collapse Into Now" arrisca o destino ingrato de sombra. À escala de R.E.M., este 15º álbum tem um sabor rotineiro. Mesmo que seja bom.
Lykke Li – Wounded Rhymes
Desde "Youth Novels", passaram três anos, mudou-se o cenário, mas Lykke Li não mudou assim tanto. Foi a Los Angeles, diz a própria, à procura de um encontro furtuito com David Lynch, ou para sentir os deslumbramentos e fantasmas dalguma Mullholland Drive. Não encontrou Lynch. Mas reencontrou-se a si mesma, de volta ao sítio onde estava, entre os sonhos rosados de Björk e os pesados de Fever Ray dos Knife, continuando a ser aquela viking guerreira do tambor, de voz ameninada e som glaciar. O forte conjunto de 10 canções alonga o estado de graça iniciado com o disco estreante "Youth Novels".
Artigo baseado em texto assinado para o Cotonete.
Arbouretum - The Gathering
No território sombrio e infernal dos Arbouretum, a voz colossal do guitarrista David Heumann parece cair directamente do paraíso, imprimindo uma musicalidade ternurenta a um arrastamento que é cavernoso e que tem parentesco com os Black Sabbath e o doom. Nesta espécie de grunge em câmara lenta, 'Destroying to Save' merecia devolver a rádio às apostas de risco no rock. Apenas ficam a perder na versão do tema clássico do country 'Highwayman'. Merecem ser seguidos.
PJ Harvey – Let England Shake
A mutante PJ Harvey é desta vista num inesperado triângulo entre Cocteau Twins, Shirley & Dolly Collins e o general Loureiro dos Santos, mas a milhas de distância de cada um deles. Etérea mas de dimensão demasiado grande para caber num expositor da 4AD; com rock encorpado a mais para se ficar na folk de um cenário bucólico de Jane Austen; e mergulhando na história militar britânica mas com a cabeça de uma recriadora.
Polly Jean volta ao seu conselho de colaboradores intermitentes (os velhos conhecidos Mick Harvey e John Parish, e o menos habitual baterista Jean-Marc Butty) para mais uma vez mudar, espalhando surpresas como o contraponto com uma voz masculina com quem trava os diálogos das 12 novas canções, ou samples de sons étnicos e militares.
Aquela margem indefinida entre rock e folk, com cheiro a scones e a maresia da costa sul britânica, foi palmilhando caminho há alguns anos. E talvez a metade final de "Uh Huh Her" tivesse sido o grande prenúncio para "Let England Shake", a obra maior de sempre de PJ Harvey.
GP
sexta-feira, 11 de março de 2011
Cantiga da rua
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas o alerta das suas canções mantém-se. Zeca despediu-se dos palcos naquela noite de Janeiro de 1983, não de nós. Não da rua.
GP
quinta-feira, 10 de março de 2011
Godard, Truffaut: Go! Team
E como hoje se estreia nos cinemas UCI (que é como quem diz no Corte Inglès) o documentário Godard/Truffaut - Os 2 da (Nova) Vaga, de Emmanuel Laurent, nada como pôr a boa gente dos Go! Team a fazer a justa homenagem a dois dos maiores realizadores do nosso tempo. É ver, com olhos de ouvir.
GF
Não estava lá, não estava lá
Serve a capa da presente edição do New Musical Express para apresentar esta micro-secção, destinada a carpir as mágoas de não termos estados onde deveríamos ou quereríamos.
Há um momento de que me recordo especialmente de não ter presenciado. Lembro-me como se fosse hoje que nunca vi as Throwing Muses com a sua formação original: Kristin Hersh, Tanya Donelly, Leslie Langston e Dave Narcizo. Aquela música nervosa, psicótica, rock ansioso, com úlceras a despontar a cada compasso era coisa especialmente explosiva em concerto. Dizem-me os vídeos com que me fui cruzando ao longo dos anos. E diz-me a certeza de que nunca me cruzei com outra música tão urgente e arrepiante. O melhor rock da minha vida está aqui, nestas quatro pessoas num mesmo disco ou num mesmo palco.
Não me esqueço especialmente de um famoso concerto dos Pixies que a RTP passava e terminava com Frank Black a dizer 'Throwing Muses are up next'. Nem então eu estava lá. Ou melhor, elas não estavam - eu não mudava de canal, mas o canal mudava de programa.
GF
quarta-feira, 9 de março de 2011
Eternos
Enquanto ninguém se lembra de fazer um biopic sobre a acidentada vida do extraordinário vocalista David McComb (1962-1999), vão sobrando imagens ao vivo, poucas, que são uma relíquia. Como esta acima, gravada num festival australiano, onde não falta aquela pontinha de sarcasmo típico daquela ilha na introdução de Wide Open Road. O sucesso foi sempre uma miragem para os Triffids, mesmo naqueles dias mais esperançosos pós-Born Sandy Devotional. Uma injustiça, claro. É preciso mesmo a sétima arte dar uma ajuda? Ou guarda-se o segredo?
GP
David Sitek
Quinzena Temática – produtos de Brooklyn em destaque
Deus costuma estar em todo o lado. David Sitek também. Sobretudo em Brooklyn, onde muito operou como músico e produtor, até se irritar com o hype à volta do borough mais cool de Nova Iorque e migrar para a costa oeste soalheira.
É justamente muito associado a esse furacão industrial de nome TV on the Radio, até porque é seu membro efectivo. Mas, entretanto, foi construindo o seu próprio casulo que deu asas como Maximum Balloon, uma espécie de UNKLE deste tempo para o qual convida quem bem entende (de David Byrne a Theophilus London, entre outros ícones actuais).
Mas o seu CV de grande pensador de música deve muito ao seu trabalho de produtor. Liars, Holly Miranda ou os Foals já estiveram sob as suas mãos de cirurgião. Entre os trabalhos mais notáveis, contam-se a metamorfose dos Yeah Yeah Yeahs da antiga rebelião punk para a nova harmonia cinematográfica (no álbum "It’s Blitz!") ou a proteção à menos dotada princesa Scarlett Johansson com umas nuvens de dream pop em "Anywhere I Lay My Head", num trabalho de pinças que se saldou numa saudável viragem do avesso ao reportório de Tom Waits.
GP
terça-feira, 8 de março de 2011
1...
De Angles, que sai a 21, conhece-se ainda apenas o single Under Cover of Darkness. E, infelizmente, parece que as razões para verdadeira celebração terão de esperar pelo segundo álbum a solo de Casablancas. Apesar das guitarras nos conquistarem de imediato e de chegar a cheirar a grande canção. Mas não o é. É apenas mais uma. E mais uma inferior a qualquer uma das que compõe Is This It. Pode ser que seja apenas o isco errado para um disco brilhante. Só que não parece. Podia parecer. Mas não parece. Podia dar esperança. Mas não dá.
GF
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